Vida: Quem se importa?

🇺🇸  🇧🇷
Botafogo, Rio de Janeiro
por Bhuvi

Vida é a energia divina que ocupa nosso corpo; é puro Amor e Natureza. Vida é a existência pacífica dos seres sencientes.

É isso? Ou deveria ser assim?

O que é vida, afinal? É o que recebemos ou é o que fazemos com o que recebemos? Quem é dono da vida?

Decidi sair para uma caminhada em meditação e sentir a vida. Depois de algum tempo me abri para o mundo ao meu redor, e isto é o que eu recebi:

“Pessoas não são descartáveis”, dizia o grafite no muro atrás do homem que dormia em cobertores imundos, em uma rua chamada Voluntários da Pátria, onde fileiras de prédios, em ambos os lados, esticavam-se até o céu: pedaços particulares do paraíso, hostis àquele cidadão e aos outros encolhidos na calçada, em frente a cada um dos bancos e a cada uma das igrejas.

“Who cares?” Ou, quem se importa? — era a estampa da camisa de um pedestre.

Mentalmente repeti a pergunta e alguns quarteirões depois recebi a resposta.

Um homem pedia dinheiro; mostrava três moedas na mão e falava que o café da manhã é a refeição mais importante, porque dá impulso para começar o dia. Ele sorriu com a boca vazia e os dois cachorros dele abanaram o rabo, enquanto eu lhe entregava algum dinheiro.

— Querem brincar!

— São bonitos os cachorros. Qual é o nome deles?

— Vida e Beethoven. A Vida fugiu de mim uma vez. Mas eu encontrei ela de volta, com ajuda dos vizinhos por aqui. Ela é durona. Mas se você não ficar bem atento a ela, ela pode simplesmente escapar de você. Ela é doida. Eu amo a Vida! Mas você não pode contar que é garantido que ela está ali. Toda manhã, assim que eu abro os olhos eu vejo se a Vida está comigo. Sabe? A gente precisa mesmo é saber o que realmente importa. Você precisa olhar na direção dela. Olhar dentro dos olhos dela. Olha! Sério! O que você vê? Cuida disso. O que você vê nos olhos da Vida é tesouro. E… Sabe? Quando eu pensei que tinha perdido ela, algumas pessoas me ajudaram, mas eu é que tenho que cuidar. Entende? Sou responsável pelo que acontece com a Vida; ela é minha responsabilidade desde o dia que eu recebi ela. Fé. Tenho fé… Na Vida. Mas aí tem gente que trata mal a Vida. Minha Vida, sabe? Eu posso até estar nessas condições aí, mas minha Vida não pertence a eles. Não. Eles podem ter dinheiro; eu tenho Amor. Eu tenho a Vida.

— Te entendo! — eu tinha lágrimas nos olhos.

— Agora olha como os dois são felizes juntos! Eu não acho que a Vida seria feliz sem Beethoven! Ele é quieto, relaxado, assim… Eu amo ele também. Bem… A Vida é especial. A Vida é um presente que me deram. E quando você recebe um presente, você toma conta dele. Se ele acabar sendo difícil, você simplesmente tem que fazer o seu melhor para conseguir. Porque… Sério! Quando você age, só o fato de você agir já é um sucesso. Ah! E obrigado pelo sorriso. Não tem muita gente que faz isso por aqui.

Enquanto Elson e eu apertamos as mãos, Vida e Beethoven pularam em mim e a pergunta, em minha mente: Quem se importa?

Elson e os vizinhos se importam; Vida e Beethoven, também.

Pessoas não são descartáveis; cada um de nós conta. Seja presidindo um país ou dormindo debaixo de marquises, não importa a cor, etnia, sexualidade ou sexo, o valor de uma pessoa está no próprio fato de essa pessoa existir. Todas as vidas importam. Todas as vidas são vivíveis, e todas as vidas são passíveis de luto.

Todos nós deveríamos nos importar.


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O ser cinza

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Em uma região não tão distante, vivia uma família. Pai, mãe, irmã e irmão eram felizes juntos.

Até que um dia surgiu uma estranha e pequena forma de vida. A família ficou muito desconfortável com aquele ser, porque era muito diferente de tudo o que já tinham visto.

Sem saber o que fazer e como lidar com aquela diferença, eles o colocaram em uma caixa de sapato, dentro do armário.

De vez em quando davam uma olhada naquele ser cinza agora vivendo com eles. Mas os irmãos faziam nada além de espiar com um olho por um buraco feito no papelão. O pai e a mãe nunca chegaram perto do ser.

Certa tarde o irmão pediu à irmã que lhe emprestasse a luz que era dela.

— Mas não vai funcionar com você — ela respondeu ao pedido dele.

— Só quero tentar ver o que aquela coisa realmente é.

Ele andou até o armário e sussurrou seu pensamento:
— E talvez matar, para não termos que lidar com isso. Não quero nenhum tipo de problema.

A irmã, que era uma boa ouvinte, foi capaz de ouvir o pensamento do irmão. Ela contou ao pai e à mãe que ele planejava matar aquele ser, para se livrar de algo que ele considerava ser problema.

Ninguém se importou.

— Melhor eliminar aquilo do que viver qualquer confusão — disse o pai.

— Sim, devemos sempre evitar qualquer futuro inconveniente — reforçou a mãe.

— Mas é um ser. E neste momento ele está tão pacífico, do seu próprio jeito — exclamou a irmã, antes de correr de volta para o quarto, onde encontrou o irmão olhando dentro da caixa.

— Não o mate, irmão — ela o assustou.

— Ah, mas isso agora parece um morcego.

— É um morcego? E precisamos matar morcegos?

— Não. Não.

— Por que não o deixamos ir? Simplesmente deixá-lo voar!

— Porque parece que pode se transformar em dois e machucar nossa família.

— Não entendo, irmão. Ele se reproduziu?

— Não.

— Ele faz movimentos ameaçadores?

— Não.

— Deixa eu dar uma olhada.

A irmã jogou sua luz dentro da caixa.

— Irmão, venha dar mais uma olhada! — ela gritou surpresa.

— Eu disse. Deve estar agora um monstro, e devemos matar esse ser — sem ter coragem de olhar novamente, o irmão saiu do quarto. — Vou encontrar a arma certa.

— Não, irmão — ela o deteve. — É tão pequeno. É tão adorável! Tenho certeza de que é inofensivo. Pode até nem sobreviver fora dessa caixa que nós criamos.

— Eu disse que só com a sua luz, irmã, o ser seria revelado.

— Então por que você não vai encontrar sua luz? Talvez então não haverá mais seres “cinza”. Na luz do Amor somos iguais; somos inteiros e não há medo.

Sem saber o que fazer e como lidar com aquela diferença, eles o colocaram em uma caixa de sapato, dentro do armário. De vez em quando davam uma olhada naquele ser cinza agora vivendo com eles. Mas os irmãos faziam nada além de espiar com um olho por um buraco feito no papelão.


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